Os governantes do Hamas, grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza, tentaram impor novas restrições à cobertura jornalística internacional na região após o recente conflito entre a Jihad Islâmica Palestina (PIJ, da sigla em inglês) e Israel. De acordo com um grupo que representa a mídia estrangeira em Israel e em territórios da Autoridade Palestina, as restrições foram comunicadas no começo desta semana e depois revogadas na terça-feira, 9 de agosto.

O Hamas, que tomou o poder em Gaza em 2007, exige que todos os repórteres visitantes tenham um patrocinador local – geralmente um jornalista ou tradutor palestino contratado pelos veículos de notícias. Esses palestinos que trabalham com os jornalistas estrangeiros foram informados pela primeira vez das novas regras no início desta semana, por meio de mensagens enviadas pelo Ministério do Interior de Gaza, administrado pelo Hamas. Eles foram ordenados a não relatar sobre cidadãos da região mortos por foguetes palestinos mal disparados ou por investidas militares dos próprios grupos terroristas palestinos, e foram instruídos a culpar Israel pela recente escalada dos confrontos.

As regras teriam ido muito além das restrições pré-existentes do Hamas. Eles pareciam ter por objetivo a imposição da narrativa do grupo islâmico na cobertura da mídia do conflito que teve início na última sexta-feira (5), ameaçando implicitamente os repórteres e tradutores palestinos que vivem sob seu domínio.

A Foreign Press Association, que representa a mídia internacional, incluindo a agência de notícias Associated Press (AP), disse que as diretrizes foram revogadas após discussões com autoridades em Gaza. Em sua reportagem, a própria AP aponta que “mesmo que as regras tenham sido oficialmente retiradas, o Hamas ainda sinalizou suas expectativas, o que pode ter um efeito assustador na cobertura crítica (da situação)”.

Para André Lajst, cientista político e presidente executivo da StandWithUs Brasil, a ameaça à liberdade de imprensa na região é preocupante, pois ameaça não só a vida e o trabalho dos jornalistas, mas também o acesso à verdade sobre o que ocorre na região. O especialista ainda cita um exemplo dessa restrição imposta na cobertura do conflito com a Jihad Islâmica, que foi flagrada em vídeo: “Durante uma transmissão ao vivo do jornal libanês al-Mayadeen, na segunda-feira, dia 8, o cinegrafista registrou um lançamento fracassado de um foguete da Jihad Islâmica, que atingiu uma área povoada da Faixa de Gaza. O repórter até tenta disfarçar, encobrir o fato e dar dicas para fazer o seu colega desviar a câmera do local do flagrante, mas não adiantou. Tudo ficou registrado – tanto o ataque mal sucedido, quanto o nervosismo do jornalista, que pede enfaticamente que o cinegrafista virasse a câmera. Agora sabemos o porquê: eles estavam sob a ameaça do Hamas”.

Com a revogação das novas restrições, os patrocinadores foram informados de que mesmo assim devem acompanhar os jornalistas durante suas reportagens e serão responsabilizados pelo que eles produzirem. Eles também foram avisados ​​de que devem “demonstrar espírito nacional, defender a narrativa palestina e rejeitar a inclinação do estrangeiro em relação à narrativa israelense”, que “qualquer comportamento suspeito ou perguntas ilógicas” fora do escopo do trabalho jornalístico deveriam ser reportados ao Hamas e que o grupo deve receber um relatório das atividades da imprensa em Gaza, juntamente com os links de todos os materiais publicados.

A tentativa do grupo terrorista de distorcer e amordaçar a mídia estrangeira veio depois que o Hamas ficou de fora do último conflito com Israel. Após um cessar-fogo em Gaza na segunda-feira, depois de três dias de combates entre Israel e a Jihad Islâmica, o Ministério do Interior distribuiu uma cópia escrita das regras aos palestinos que solicitam permissão de entrada em nome de meios de comunicação estrangeiros, com instruções para comunicá-los aos jornalistas estrangeiros em sua “própria maneira local”.

Nos últimos anos, o Hamas também tem tentado controlar a cobertura midiática exigindo que os jornalistas solicitem aprovação antecipada para filmar em determinados locais, como o porto de pesca de Gaza, proibindo os palestinos de trabalhar para a mídia israelense, prestar serviços a eles, e até mesmo os impedindo de dar entrevistas a veículos israelenses.